Por Alsones Balestrin
A modernização do agronegócio brasileiro já vinha em trajetória crescente antes da popularização da Inteligência Artificial (IA), com a combinação de automação, digitalização, biotecnologia e conectividade elevando a produtividade agrícola em mais de 480% desde 1990, com expansão mínima da área plantada. Agora, o desafio é maior: produzir mais para alimentar o mundo sem aumentar impactos ambientais, em um cenário de demanda crescente e mudanças climáticas.
A IA inaugura um novo ciclo de inovação no campo. Com a conectividade ampliada, especialmente via satélite, fazendas como as da SLC Agrícola tornam-se centros digitalizados, com sensores, estações meteorológicas e máquinas conectadas. Soluções testadas com empresas como John Deere, Bayer e Solinftec já entregam ganhos expressivos: redução de até 70% no uso de herbicidas com o See & Spray; otimização do uso de insumos e previsibilidade das safras com o FieldView; e mais de 90% de economia de defensivos com o robô Solix.
Apesar dos avanços, 95% das propriedades no mundo têm menos de cinco hectares, e a adoção ainda se concentra em grandes produtores. Democratizar o acesso é essencial. Segundo especialistas, o agro sempre gerou muitos dados – o desafio era integrá-los. A IA, especialmente a generativa, agora permite cruzar históricos de produtividade, clima e solo, antecipar pragas e aumentar eficiência. Os impactos aparecem em três frentes: redução de custos, aumento de produtividade sem expansão de área e novas receitas, como créditos de carbono e prêmios de rastreabilidade.
A agenda ESG também avança com a IA. Rastreabilidade inteligente e monitoramento por satélite permitem acompanhar toda a cadeia, impulsionados por exigências internacionais. Mais de 80% da soja exportada é rastreável. Tecnologias como blockchain e modelos preditivos ampliam transparência, reduzem desperdícios e fortalecem a imagem do Brasil como fornecedor de alimentos sustentáveis.
A IA não substitui o produtor – potencializa decisões e cria uma agricultura mais precisa e sustentável. O Brasil tem condições únicas para liderar a nova economia verde, unindo produtividade e preservação. Se o século XX foi o da mecanização, este será o da inteligência aplicada à terra, em que produzir e conservar caminham juntos.
Sobre o autor: Alsones Balestrin é Professor da Fundação Dom Cabral e Conselheiro de Administração.
FONTE: ARTIGO EXAME

